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    “Alice”: velha (des)conhecida

    Por Andrés Rodríguez Ibarra

    Assisti ao Alice no Pais das Maravilhas de Tim Burton há coisa de um mês, um mês e meio atrás e fiquei com vontade de escrever a respeito, mas senti-me aquém do desafio, já que, confesso, nunca tinha lido o livro (apesar de tê-lo começado em diversas ocasiões ao longo da vida). Resolvi, então, fazê-lo, e tive a sorte de me deparar com a novíssima e primorosa edição da Cosac&Naify, que conta com a excelente tradução (como não poderia deixar de ser) de Nicolau Sevcenko e ilustrações geniais de Luiz Zerbini.

    A obra de Lewis Carroll tem um peso cultural enorme, inúmeros dos melhores pensadores da nossa cultura já lhe dedicaram  uma vastidão de textos; como dizer algo de novo? Possivelmente, Burton também se fez a mesma pergunta no início desse seu projeto, pergunta que, no seu caso, é adensada pelo fato de que a filmografia de Alice tampouco é pequena. Mas, digamos que, se tudo (a vontade de escrever a respeito e a leitura que daí decorreu) nasceu do filme de Burton, e se ele conseguiu, por que nós não conseguiríamos?

    Comecemos pelo livro para, depois, chegarmos a esse ponto de início (o filme). Me parece que deve haver um motivo pelo qual essa obra seja o marco cultural que ela é. Quem já escreveu a respeito, creio, não fez senão tentar desvendar esse mistério.

    É a questão da lógica, diz Deleuze, no seu importante tratado filosófico, A lógica do sentido, que se ancora em Alice para abrir um diálogo que é com ninguém menos do que Platão. Alice, com o seu uso extensivo do non-sense, faria eco aos estóicos, cujo uso dos paradoxos abre o discurso para o devir e para os simulacros, que se opõem ao ícone platônico e ao seu funcionamento por meio  da semelhança: para esse autor, o platonismo teria como tarefa-mor “impor um limite” ao “devir louco” que se encontra no simulacro, “ordená-lo ao mesmo, torná-lo semelhante”. No seu estica-encolhe, Alice é puro acontecimento, ausência de identidade, quase que um fantasma que carrega consigo uma outra lógica, a lógica do sentido. Matemático que era, Lewis Carroll teria um assento nessa reunião de cúpula deleuziana.

    No posfácio à sua tradução de Alice, o historiador Sevcenko nos traz uma outra versão a respeito do mistério da “sublime Alice”, chamando a nossa atenção para o contexto histórico em que Carroll escreveu. Seria o momento—século XIX inglês—em que a Revolução Industrial se consolidava e no qual a infância passaria por profundas transformações que ficariam a cargo, principalmente, da instituição “escola”.  Alice, de fato, em diversos momentos tece comparações entre o “país” no qual “caiu” e a escola que ela freqüentava no seu mundo, para concluir que a distância não era tão grande entre os personagens (e as atitudes) que se encontram num e noutro; sob esse enfoque, a obra de Carroll é um libelo pela ludicidade, diante da sisudez do mundo vitoriano.

    O que eu quero trazer à baila, aqui, é uma terceira hipótese, que atualiza o livro de Carroll e que, creio, se sintoniza com o que Burton pinta, de Alice, no seu filme.  A hipótese é a de que Carroll, um professor de matemática inglês que viveu no século XIX, tenha sido um dos primeiros homens a perceber que existe uma outra lógica, sim, uma lógica diversa daquela que ele próprio devia ensinar enquanto homem da revolução então em curso: uma lógica feminina.

    O dezenove foi o século da Revolução Industrial, que aconteceu em concomitância com uma série de revoluções políticas que muito barulho fizeram.  Já o vinte foi o palco de uma tremenda revolução política, que muito pouco barulho fez, mas que certamente deixou todas as outras no chinelo: a revolução feminina; e, hoje, as conseqüências dessa se medem, creio, na própria forma como se recebe a personagem Alice: com um certo cansaço, como se ela já não tivesse mais o quê nos dizer, principalmente para as mulheres. Alice, hoje, é meio óbvia, mas isso, creio, se deve ao fato de que o que ela anunciou, durante tanto tempo (um século e meio), se concretizou, as Alices andando, hoje, soltas e à vontade em meio a vuvuzelas e redes sociais, a um “país das maravilhas” do qual se tornaram cidadãs com plenos direitos.

    O genial no filme de Burton é justamente isso: ao colocar em cena uma Alice um pouco mais crescida do que a do livro, indagar sobre o agora e sobre o futuro de um personagem que já disse tanto e em nome de tantas a ponto de ter se tornado quase uma efeméride, uma inscrição, ainda que móvel, no pergaminho da nossa história coletiva. Restaria alguma coisa por fazer à Alice? Sim, responde o filme, mas desde que ela assuma essa sua história, seu nome, sua assinatura. Desde que ela se reconheça a si mesma e àquilo que significa no coletivo.

    O filme termina com um enfrentamento entre forças que, no livro, estão longe de existir: a rainha que se encanta com o poder e a duquesa que não lhe dá bola.  Se no livro, é cômica a mania da primeira de mandar cortar as cabeças de todos aqueles que a contradizem de algum modo, no filme, essa mania se reveste de um perigo real e, obviamente, Alice acaba tendo que tomar um lado na guerra que já está em curso. Imposição bilheteiresca para tornar o filme palatável aos olhos acostumados a essa eterna disputa do bem e do mal? Creio que não: trata-se meramente da afirmação de que tem que se avançar nas conquistas que Alice já realizou, de que acreditar que o seu papel se esgotou, reduzindo-se ao infantil, é pensar pequeno.

    Talvez alguém já tenha escrito algo no sentido do que ora proponho, alguma feminista. E talvez algum deleuziano venha a dizer, a esse mesmo respeito, que Deleuze, na sua procura de uma outra lógica, já percebia que o discurso feminino, a forma como as mulheres enxergam e se situam no mundo (tal como se lê na história de Alice), é algo muito próximo do discurso que se imbui de devir. Se esse (último) for o caso, então creio que podemos parafrasear Foucault – que disse em tom um pouco irônico, num texto que escreveu a respeito desse seu amigo, que “talvez um dia o século seja deleuziano” – e dizer que ele já é.

    Comentários

    Comment de Carmen
    Data 24/06/2010 as 11:06

    Andrés, arrasou. Mudou minha visão do filme, realmente não tinha nem refletido sobre ele. Vou até ler o livro! Pra assistir o filme de novo. Beijo!

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