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    A impossibilidade da catarse

    Por Juliana Bonat

    O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, apresenta reflexões sobre padrões de normalidade e o fazer literário no Brasil.

    O Filho Eterno
    Cristóvão Tezza
    Record
    222 páginas

    Ao se deparar com o último livro de Cristóvão Tezza, o leitor mais desatento provavelmente pensará que a obra se trata de um romance piegas sobre a difícil e dolorosa relação entre um pai e seu filho com síndrome de down. No entanto, aqueles que já conhecem a ficção do autor catarinense, não se enganarão tão facilmente. Pelo contrário, irão, rapidamente e intensamente como eu, se aventurar pelas páginas do romance.  E, se por acaso o leitor se sentir um pouco angustiado ou sufocado ao ler suas linhas, não se espante! As sensações trazidas pelo livro podem ser tudo, menos leves ou superficiais.
    É impossível passar pelas páginas do livro sem se questionar sobre os padrões de normalidade humana. Padrões tão fortemente enraizados em nossos espíritos que nos impedem de enxergar humanidade naqueles que não se encaixam em suas fôrmas. Padrões que não permitiam ao narrador perceber o seu filho e que o levaram a rejeitá-lo. Entretanto, se há algo que nos enraivece no romance, não é a constatação de que o pai rejeitou o filho no princípio ou de que o escritor não conseguia perceber as especificidades do menino. O que realmente nos tira do sério é a inescapável assunção, muito incômoda, de que não há mocinhos nem bandidos nesta história, e de que nós, leitores, somos passíveis de ter a mesma atitude do narrador. Sofremos todos do “autismo” que afetou o pai, o qual, mesmo convivendo com o seu “filho eterno”, não era capaz de sair de seu mundo para perceber a criança que estava ao seu lado.
    Outro tema que permeia a obra é o próprio fazer literário. Em relação a este aspecto, o autor também inova. Mesmo que a metalinguagem seja recorrente em seus outros romances, aqui ela assume um novo formato. Se em O Fantasma da Infância e Trapo, há duas narrativas paralelas – a do criador e a da criatura -, em O Filho Eterno, este processo criativo está presente, mas não tão explicitamente. Agora, o narrador é simultaneamente criador e criatura, e seu presente e passado fundem-se.  Ele está, a todo momento, construindo-se, desnudando-se e escondendo-se.  Ele está se inventando, pois, como afirma: “… as coisas não são nada até que digamos o que elas são”.
    O nascimento do filho como uma brutal ruptura, o romance como a impossibilidade de catarse. O narrador que passou tantos anos de sua vida “cabeceando como um boi na fila do matadouro” e apostando na literatura como forma de resolução de seus problemas, percebe-se agora diante da sua dependência do filho e de sua própria inserção no campo literário. Aquele que afirmava, em O Fantasma da Infância, que “…escrever é, por obsoleto que pareça, corrigir o mundo inteiro, que sofre de defeito congênito”, transformou-se no homem que, em O Filho Eterno, substitui a necessidade de normalidade, de correção, pela vivência amorosa paterna e pela trajetória de um escritor que, após tantas portas fechadas, começa a ter seu trabalho reconhecido.
    O Filho Eterno é a obra de um artista e de um homem maduro; de um escritor que não se cansa da busca incessante de reconhecimento em um país de poucos leitores e de um pai, expressão ampliada do filho, que se vê como uma eterna criança.

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